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Ele, o microfone e a mamã

"Radicalismos" de uma mãe galinha, rabiscos e cantorias do pequeno príncipe T e vida, muita vida para vos mostrar. No nosso T3 vivemos e sorrimos muito.

Ele, o microfone e a mamã

"Radicalismos" de uma mãe galinha, rabiscos e cantorias do pequeno príncipe T e vida, muita vida para vos mostrar. No nosso T3 vivemos e sorrimos muito.

De Janeiro...

31.01.19 | Liliana Silva

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Chega hoje ao fim o mês que consideramos mais comprido, ainda que tenha os mesmos dias de muitos outros. Termina hoje o mês que muitos consideram como o mais triste do ano. Damos por terminado hoje o mês do sorriso, do dia mais triste, do puzzle, do bolo de chocolate, dia da neve, o dia de reis...uma infinidade de dias que serviram para muito.

Janeiro é por aqui e por excelência o mês de celebrar a vida e as segundas oportunidades.

Janeiro termina hoje. Janeiro é mês cinzento e frio. Terminamos assim, mas até que não foi um mês mau para os friorentos como eu. Janeiro trouxe as maleitas, as viroses e as infecções. Estou um bocadinho farta de ti meu mês, mas ainda assim encerro-te com a certeza de que comecei o ano da melhor forma que consegui.

De janeiro levo a certeza de que, como não fiz pedidos de maior na passagem do ano, não tenho resoluções a cobrar de mim mesma. Continuo sem conseguir ler um livro, ainda não fui ao spa, o quarto dos arrumos ainda não tem ponta por onde lhe possa pegar, os brinquedos continuam espalhados por toda a casa (hoje encontrei uma moto4 no wc ) e por muito que arrume, continuo a ter um cantinho de roupa que não me apetece dobrar ao longo da semana .

Em Janeiro renovei a percepção de que a vida corre contra o tempo. Usei muitas vezes a expressão "há sempre gente pior que eu", mas continuei a sentir-me "amaldiçoada" por quem não tem mais o que fazer a não ser prestar atenção à conquista dos outros. 

Terminamos Janeiro com chuva, com vento, com frio. Terminamos este Janeiro como os outros todos, com a certeza de que podemos sempre viver melhor do que aquilo que o fazemos. Que em cada gota de água possamos colocar os nossos desejos, sonhos ou objectivos e que da terra brotem concretizações reais de coisas boas e positivas para o nosso dia a dia.

Fevereiro estou pronta para te receber, sem expectativas mas com muita ansiedade.

Ilustração https://www.facebook.com/Martisses-ilustra%C3%A7%C3%A3o-127691100611576/

 

 

Uns dias de pausa...

29.01.19 | Liliana Silva

 

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Estou em crer que quando o mundo perde uma criança, fica sem dúvida mais pobre. É assim que me sinto. E se para alguns isto é dramatismo puro, para mim isto é motivo de reflexão, motivo para repensar, motivo para relembrar o essencial nesta vida de correria.

O mundo perdeu o Julen. Aqueles pais perderam um filho. Milhares de pais perdem os filhos todos os dias para as doenças, para os acidentes trágicos, para a guerra, para a fome... e é uma realidade que pode acontecer a cada um de nós...mas parece-me que as pessoas não se apercebem bem disso. Acredito também que não é um assunto que tenhamos de trazer no pensamento, muito menos um assunto em que tenhamos de estar à espera, pois isso seria não viver. A isto chamamos de medo e este não pode fazer parte do nosso vocabulário. O que quero com isto dizer é que parei para encontrar significado nestas tragédias...

Se encontrei?! Não! Simplesmente percebi aquilo que há muito tenho escrito e tenho dito, aproveitamos pouco o muito que temos, reclamamos demais pelos problemas que nos surgem, criamos entraves onde eles não existem...e depois? E quando o pior bate a porta?! Lamentamos porque não fomos, porque não fizemos, porque não aproveitámos, porque não...?! Andamos assim, sobrevivemos num mundo atolado de energias cansadas e sem tempo.

Necessitei de uns dias de pausa por aqui. Sem palavras, sem fotografias, sem vídeos...uma pausa para aproveitar o que tenho ao meu redor, uma pausa para entender isto dos verdadeiros afectos, uma pausa para resolver os problemas interiores que não passam disso mesmo. Acho que devemos estas pausas a nós mesmos e aos outros. A correria do dia a dia tira-nos a capacidade de agir com sentimentos. Somos máquinas no corre corre da vida.

O que ganhei ao fazer este "luto", hoje pelo Julen?! Ganhei paz interior, ganhei coragem para seguir sem medo, ganhei o entendimento necessário para saber que nunca vamos controlar tudo, e se um dia, por algum motivo a tragédia voltar a bater à porta, eu tenha a capacidade de saber que neste tempo eu fui verdadeiramente feliz.

Porque viver é isto...é aproveitar aquilo que temos de melhor e mais verdadeiro, o amor, as amizades, as conquistas...porque viver é ter a capacidade de nos reerguer dos maus momentos sempre com a esperança de que a vida não são só tragédias. Que sejamos capazes de lutar sempre pelos nossos sonhos pois só assim isto faz realmente mais sentido.

Fui...mas já voltei...

 

 

As doenças das mães

21.01.19 | Liliana Silva

 

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De cada vez que fico mais fraca é quando me sinto mais forte.

De cada vez que só me apetece aninhar e descansar é quando percebo que o corpo ganha vida e anda.

É um dos super poderes das mães. Nós não conseguimos ficar verdadeiramente doentes. É quase que proibido!

Ontem "fraquejei" e a "dor de barriga" que inventei à pressão para que o miúdo não se preocupasse muito é na verdade mais uma infecção chata que tenho de combater tentando amenizar dores e mau estar com antibiótico, anti inflamatório e mais uns antis para controlar isto nos próximos dias.

A verdade é que mesmo assim, eles puxam-nos, é quase como se precisassem ainda mais de nós. É um íman...eu digo que preciso descansar um pouco porque estou meio adoentada e ele duplica o número de vezes que chama o meu nome!

Já para não falar da necessidade de toque...é por demais a vontade com que saltam para cima de nós e têm a forte apetência para os miminhos...e lembram-se??? Só precisávamos de um espaço e um tempo para nós recompormos!!

Mas naaaa, qual quê?! Já dizia o outro que as mães não adoecem e estou em crer que não descobriu mentira nenhuma!

Ao final do dia, aninhei-me com ele e percebi que estava "preocupado"...

T: mas que dor de barriga é essa que dura o dia todo? Será que amanhã ainda vais estar assim? Quando me dói a barriga passa rápido...não será melhor descansares muito para amanhã estares melhor?? 

Se calhar sim rico filho...devo tapar olhos e ouvidos, entrar na minha cápsula mágica e distanciar-me deste T3 o tempo suficiente para me recompor! Mas sabes?!

Não seria com certeza a mesma coisa. E ainda que ache que ninguém é insubstituível, uma mãe, ainda que doente move montanhas para conseguir continuar a fazer o comer, lavar a loiça, aplaudir os teus espectáculos ou adormecer-te com festinhas e beijinhos.

Ninguém é insubstituível, mas uma mãe...aiii uma mãe tudo pode!!!

 

Ilustração - O Trocatintas

Tchin Tchin ao Transplante

18.01.19 | Liliana Silva

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Não consigo falar dos meus pais sem que me emocione e sinta verdadeiros apertos no coração. Conseguem gerar em mim um misto de sentimentos e só por isto acho sinceramente que fizeram um excelente trabalho comigo (ohhh modéstia à parte, ok). Quando falo deles ou rio que nem uma perdida ou desfaço-me em lágrimas como uma criança que quer muito uma coisa. As lembranças que tenho deles e as vivências que com eles passei fazem-me ter a certeza que fui uma abençoada com estes dois seres.

Há 15 anos era Domingo. Há 15 anos a mesa estava posta. Há 15 anos o almoço era feijoada. Há 15 anos tocou o telefone...aquela chamada que iria mudar as nossas vidas do avesso. Há 15 anos deram-nos uma nova oportunidade para viver. A ele deram-lhe um fígado, a nós a possibilidade de o continuar a manter por perto e de aproveitarmos mais momentos em família.

Hoje paro!! Não para vos falar de mim...mas para vos falar Dele!! Do meu Homem Grande e do Grande Homem que é nas nossas vidas. E falo-vos dele porque sim...porque merece...porque é grande...lutador...amigo...companheiro...porque é daqueles que muitos conhecem "por fora" mas poucos saberão o que lá vai "por dentro". e falo-vos dele NÃO PORQUE HOJE SEJA O TEU ANIVERSÁRIO PORQUE NAO É...mas porque comemoramos a 18 de Janeiro a VIDA! Comemoramos as segundas chances...as novas oportunidades. falo-vos dele porque já passaram 15 anos desde que alguém "partiu" para lhe poder proporcionar uma nova chance de viver. E falo-vos dele porque as melhores homenagens são aquelas que fazemos em vida...são aquelas que podemos demonstrar com gestos, com palavras, com AMOR. E falo-vos dele porque me deram essa oportunidade...deram-me oportunidade de valorizar ainda mais os seres chamados de "pais" que cruzaram a minha vida! E falo-vos dele para que todos percebam que é mesmo GRANDE...e que é MEU PAI...o MEU HOMEM. Fal-vos dele para que saibam que hoje...em mais um ano brindaremos a tudo...ao amor...à cumplicidade...ao carinho...às conversas sérias...aos problemas graves...aos passeios...às viagens...brindaremos à VIDA. Love'u daddy

O buraco do inferno...

16.01.19 | Liliana Silva

 

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Cá por esta serra, onde a neve encanta e o verde nos entra pelos olhos, temos um poço do inferno. Um local lindo, uma pequena lagoa em plena Serra da Estrela resultante de uma queda de água com cerca de 10 metros de altura, formada pelas águas de uma ribeira. Lembrar-me deste poço é sentir liberdade, respirar ar puro, conectar energias com a natureza que nos envolve.

Mas por estes dias, a palavra poço leva-me ao buraco onde, muito provavelmente, estará o pequeno Yulen. E pensar nesta situação deixa-me sem fôlego. A ansiedade toma conta de mim ao pensar neste pequeno ser. Confesso que evitei escrever sobre o assunto. Muito menos me pus a ler sobre o mesmo. Recusava a ideia desta tragédia ser tão absurda quanto provável. Mas a verdade é que as buscas em nada têm dado e as esperanças começam a ficar minadas por falta de registo da criança. E agora pergunto eu...que karma é o destes pais que já perderam um filho para a doença? Que legitimidade terá um Deus para nos privar dos nossos melhores tesouros? Que mal tão grande fez este anjo para tamanha tragédia?

Há poucas coisas perceptiveis no mundo. Se olharmos em volta, vamos perceber pouco de como as coisas realmente funcionam. Pomos os nossos filhos para estudar, exigimos deles os melhores resultados, matamo-nos a trabalhar e exigem de nós resultados práticos. No final do dia a azáfama ainda nos tira tempo para as relações, para o toque, para as brincadeiras...e o dia passa! E os dias passam...

E as tragédias batem a porta. A campainha destes pais nem sequer tocou. Nem sequer tiveram tempo de dar à chave para trancar a porta. O grande objectivo deles era estarem em contacto com a natureza, passar tempo de qualidade em família, aproveitarem as relações humanas que o mundo ainda nos permite. Mas o buraco estava lá para lhes cravar a dor no peito. E volto eu a perguntar, quanto tempo teremos até que um buraco, uma pedra, um carro nos lime a vida ou o coração?

Yulen tem dois anos e não consigo imaginar uma criatura indefesa presa num espaço infímo, cheio de terra e escuro. Não terei capacidade de entender isto! Ninguém poderá ter!

Ontem o pequeno T perguntou se hoje de manhã podia acordar mais cedo e ir buscá-lo à cama para dormir um pouco abraçado a mim...gelei e só consegui dizer-lhe que sim.

"Não te esqueces mamã?!"

"Não meu querido, está prometido e não te vou falhar!"

Deixei a porta do quarto com vontade de voltar e agarrar-me a ele. Tentei não o "assustar" com o meu estado de espírito, e regressei mais duas vezes até ter a certeza que ele dormia o seu soninho de menino feliz. Aí deixei-me ficar sentada no chão daquele quarto, rodeada por legos, microfones e colunas, olhando-o fixamente, tentando arranjar maneira de o trazer sempre por perto, com um medo do caraças que estas tragédias um dia possam bater à nossa porta. Percebi, como é óbvio, que ele é do mundo e da vida, e que esta fará dele o que lhe tiver destinado. 

Enquanto isso, e porque ainda não consigo rezar, peço à estrela lá no alto que olhe pelo pequeno Yulen e o ampare na sua solidão. Ontem não pedi por nós, ainda que o egoísmo deste medo quisesse falar mais alto, pedi apenas pelo menino de dois anos e por todos os que sofrem com a fome, a guerra e as tragédias não anunciadas do dia a dia.

O meu agradecimento

14.01.19 | Liliana Silva

 

 

 

 

 

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Na minha terra usa-se a expressão bem-haja. É o mesmo que dizer Obrigada, mas na forma beiroa da coisa.

Sou uma afortunada, e quem me conhece e me lê começa por achar, "mas afortunada como? Já passou por tanto, já ficou privada de muito, já sofreu e já deu a sofrer, do que poderá ela ser afortunada?"

Ora pois...serei sempre uma eterna revoltada com a vida! Nunca escondi isso nem faço questão de o fazer. Ando muitas vezes de mal com tudo e com muitos, mas considero-me uma pessoa de sorte. Única e exclusivamente pelas pessoas que cruzaram o meu caminho. E ainda que tenha as minhas dúvidas existenciais sobre isto da fé ou das crenças, tenho de agradecer por estas pessoas luz da minha vida.

Bem-haja pela mãe estrela

Bem-haja pelo pai leão

Bem-haja pelo companheiro lutador

Bem-haja pelos amigos de décadas, aqueles que mesmo longe continuam a tratar os assuntos com o mesmo a vontade como se tivessemos 15 anos

Bem- haja pelo filho iluminado

Não damos o verdadeiro valor a quem nos rodeia, a quem está sempre, a quem nos ampara as quedas, a quem nos abraça nos momentos chave, a quem se aventura connosco. Lamento, mas não damos mesmo o devido valor e contra mim falo. Esquecemos muitas vezes o essencial em detrimento do importante. Deixamos muito por dizer, outro tanto por fazer, achamos sempre que amanhã também é dia para nos dedicarmos aos outros ou até a nós mesmos. E o dia seguinte não chega...e fica um vazio na imensidão da vida que nos corrói por dentro.

Deixem-me que vos diga que aprendi a agradecer os pequenos momentos como se o euromilhões me tivesse saído. Vos garanto que não deixo o que considero essencial para amanhã. Aprendi a não deitar a cabeça na almofada carregada de ódio ou mau estar por coisas que posso resolver. E ainda que não as resolva, faço questão de me empenhar na resolução.

Acreditem que as pessoas luz estão cá sempre, lutarão sempre por nós, darão sempre o melhor delas, mas precisam de um agradecimento, precisam de uma palavra, de um mimo, de um reconhecimento.

Antes que o dia termine em alvoroço, antes que a noite chegue carregada de cansaço, antes que as horas já não permitam a chamada...OBRIGADA. Aos que comigo se cruzam, aos verdadeiros, aqueles que nos dedicam um pouco do vosso tempo neste espaço tão pessoal, o meu bem-haja. Ainda que saiba que sou "pequenina" nestas coisas dos blogues, considero-me tão importante quando leio as vossas palavras, as vossas opiniões, as vossas chamadas de atenção...

Aos meus, ao meu núcleo duro e antes que a porta se feche, vocês sabem que vos agradeço por me terem mantido à tona, quando a vida teimava em mergulhar-me de cabeça...OBRIGADA.

 

As Avaliações

10.01.19 | Liliana Silva

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Chegou a convocatória! A tão temida (por mim) reunião de final de período. Mais uma estreia nesta coisa da maternidade...as notas do miúdo.

Lembram-se de há tempos ter falado das comparações, das expectativas, dos receios, da aprendizagem do miúdo?! Deixei fluir...a partir desse desabafo deixei mesmo fluir. Não deixei de me importar, mas deixei de gritar, deixei de ficar ansiosa, deixei de exigir em demasia...

E a coisa compôs-se...o pequeno príncipe T começou a fazer as coisas com mais vontade, com menos choro e menos ansiedade.

Ora, com o final do período, veio o papelinho para casa com a data e hora da reunião de pais. Assunto: o aproveitamento dos meninos...

É que nem gelei, nem tremi, nem pensei... sabia ao que ia. Sem expectativas e sem exigências.

E lá vem ela, mais uma chapada de luva branca. Toma que é para aprenderes a relativizar as coisas!! Tanto stress inicial e no fim de contas vês as palavras "Muito bom" ...  toma que o miúdo de pouco mais de 1mt deu-te uma lição do caraças.

Ouvi com atenção tudo o que foi dito pela professora, a mesma que me apaziguou o coração quando lhe liguei em tempos com as preocupações de mãe galinha. A mesma que me disse para lhe dar tempo e confiança. A mesma que me disse que o ajudasse sem pressionar, que o click ia acontecer.

Assim fiz...e no meio de tantas mães e pais percebi que a minha "afronta" não estava sozinha. No meio de tantos encarregados de educação ia vendo os olhares, as cabeças a abanar...estavamos todos praticamente no mesmo barco...aquele em que começamos a descobrir esta coisa do conhecimento com os nossos filhos.

Regressei a casa e anunciei que tinha uma conversa para ter no final do jantar. O miúdo ficou alerta e perguntou logo se era sobre a reunião com a professora. O Engenheiro da casa franziu o sobrolho e não descansou enquanto não comeu e comecei a conversa.

Decidi que não ia florear as coisas, li o que a professora tinha escrito na avaliação global, o bom e o menos bom, para que se apercebesse no que poderá melhorar daqui para a frente. E no final fiz questão de lhe dizer que estava muito orgulhosa dele e das conquistas que fez nestes primeiros meses da escola. Pedi-lhe ao mesmo tempo atenção redobrada e disse-lhe que podia aprender a brincar. Ele sorriu.

A partir daqui é mais uma etapa. Para ele e para mim. Retirei uma lição...e vou continuar a pô-la em prática para que o mini da casa seja feliz na sua casa chamada escola. Porque afinal, ele não precisa de ser o melhor, só precisa de ser feliz.

 

A minha ALTA DEFINIÇÃO

09.01.19 | Liliana Silva

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Chegaram os 33...

Sou mãe à 6!

Orfã de mãe à 6!

Filha à 33!

Companheira à quase 13!

Gosto de rir e chorar com a mesma intensidade quando assim o considero essencial. Gosto de estar no meu quarto de "solteira" a remexer as coisas que por lá ficaram. Gosto do silêncio. 

Adoro fotografia, música e praia.

Gosto dos raios do sol a bater-me na cara. Gosto da areia nos pés. Gosto de parar e olhar o mar. Gosto de me sentar na campa da minha mãe e conversar com ela sem ter de olhar o relógio. Gosto de escrever. Gosto de me vestir de preto assim como utilizo qualquer outra cor. Gosto de me embrulhar em frente à lareira e ficar assim sem fazer nada, sem que ninguém me chame ou me toque. Gosto de abraçar. Gosto dos abraços sinceros do meu pai. Gosto de reviver tudo o que já fui.

Amo o meu filho. Gosto de me sentir criança com ele. Gosto de lhe proporcionar aventuras, viagens, brincadeiras e momentos. 

Gosto quando o meu eterno marido colorido olha nos meus olhos e temos aquelas conversas sinceras que a rotina dos dias nos retira. Gosto da chuva quando a posso ver do lado de dentro da janela. Gosto dos trovões e dos relâmpagos. Gosto quando me oferecem flores. Gosto de ambientes quentes. Gosto de batatas fritas com gelado. Gosto quando cozinham para mim. Gosto de deitar a cabeça no colo dos que mais amo. Gosto de reunir os amigos à mesa e rir como uma perdida com coisas parvas. Gosto de pijamas polares, robes polares e meias polares (sou uma autêntica ursa ).

Gostava de viajar mais. Gostava de ter outro filho (embora ainda não esteja preparada para tal). Gosto de ser mulher. Gosto de ser mãe.

Não gosto do frio. Não gosto de me sentir fria. Não gosto de pessoas falsas. Não gosto quando as conheço de perto. Não gosto quando falam para mim e nas costas sei que acham coisas completamente contraditórias. Não gosto que me achem uma coitadinha. Não gosto de favas nem de queijo. Não gosto de cozinhar, passar a ferro ou aspirar(embora faça tudo isso e tudo o resto). Não gosto da sensação de cortar algodão. Não gosto de saltos altos (ainda que bonitos, não são práticos ). Não gosto dos paralelos nos passeios. Não gosto de falar da morte.

Não gosto de me sentir desnorteada. 

O que dizem os meus olhos?!

Que sofri horrores com a perda da minha mãe. Que aprendi a amar o meu filho devagarinho. Que dou valor à vida e aos que tenho verdadeiramente por perto. Os meus olhos dizem que sou transparente como a água que corre nas nascentes da minha serra, não sei fingir afeição e quando me entrego é para sempre. E ainda que tudo isto possa ter um fim, o qual não conhecemos, sou uma verdadeira abençoada pelas pessoas luz que cruzaram a minha vida. 

Brindo sempre, e ontem brindei aos 33.

Obrigada a todos os que estiveram desse lado.

O regresso às rotinas e a vontade de ficar

03.01.19 | Liliana Silva

 

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Sabia que ontem seria um dia mais "complicado" de gerir para ele...

Não gosto de massacrar muito com estas frases, mas ontem lá tive de o relembrar que "amanhã já é dia de escola, temos de arrumar tudo e deitar cedo para acordares fresco e fofo )...

No fim dava por ele a vir perguntar se "é mesmo hoje que acabam as férias?!"...e pufff lá tinha eu de ser a alavanca de notícias menos animadoras e dizer-lhe a verdade assim de mansinho para não o stressar assim tanto. Ora vejamos, se até a mim me custou regressar depois destas festividades, quanto mais a um miúdo que brincou tanto quanto pode, passeou muito, andou de bicicleta, fez os seus inúmeros espectáculos, enfim, tudo o que ele quis ele fez e terminar tudo assim, regressar à normalidade de dias mais rotineiros gera uma certa nostalgia. Tentei amenizar a coisa... jantou a assistir ao espetáculo (modo repeat) de fim de ano do Tony Carreira, ultrapassámos a hora habitual de deitar e deixei que adormecesse na nossa cama...lugar onde se sente mais tranquilo. Depois da história deixei-o conversar. Sabia que era importante para ele, sabia que ele tinha algo para me dizer. Perguntei-lhe se estava bem e se podíamos finalmente dormir e descansar...

A resposta deixou-me com o coração apertadinho de tanta vontade de o abraçar...

"Sabes mãe, sei que tenho de ir à escola, e tu trabalhar, mas sabes, tinha era mesmo vontade de ficar aqui contigo. Fizemos tanta coisa estes dias que eu queria repetir sempre e mais. Mas como tu dizes há tempo para tudo, e logo logo vem o fim de semana e estamos juntos outra vez assim muito juntinhos."

Depois disto?! Abracei-o e adormeci por momentos com ele. Hoje ao acordar a conversa repetiu-se. Acho que precisavamos os dois de interiorizar isto. Ele lá ficou na escolinha, com um beijo na palma da mão para encostar à face sempre que sentisse a minha falta e eu entrei as nove da manhã com uma vontade imensa que o tempo voasse até as seis da tarde e poder estar com ele outra vez.

O desapego trabalha-se aos poucos e com os filhos nunca o conseguimos por completo...mas a vida continua, as rotinas fazem parte, as exigências estão por cá e como não jogo no Euromilhões tenho de contentar com os dias de férias que posso ir tirando para me aproveitar do miúdo e o miúdo de mim.

Venha de lá mais um ano a fazer cumprir objectivos, mas sobretudo um ano a carregar o coração de bons momentos.