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Ele, o microfone e a mamã

"Radicalismos" de uma mãe galinha, rabiscos e cantorias do pequeno príncipe T e vida, muita vida para vos mostrar. No nosso T3 vivemos e sorrimos muito.

Ele, o microfone e a mamã

"Radicalismos" de uma mãe galinha, rabiscos e cantorias do pequeno príncipe T e vida, muita vida para vos mostrar. No nosso T3 vivemos e sorrimos muito.

A Imperfeição de Palavras e Sentimentos

08.08.17 | Liliana Silva

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Extraído do livro “Mães Arrependidas” da socióloga ORNA DONATH, a Revista Visão transcreve esta semana um artigo sobre os testemunhos de mães que preferiam não o ser.

Ao ler o titulo pensei num primeiro instante que se trataria de algo mais superficial ou até mesmo uma não notícia. A verdade é que na introdução comecei a arrepiar-me, e com os testemunhos fiquei completamente incrédula.

“Abdicar deles sem pestanejar?” Confesso que era uma realidade que nunca me passou pela cabeça com tamanhas afirmações e declarações. No tal primeiro impacto que as noticias tendem a causar em nós, fiquei com o coração apertado. E fiquei com o coração apertado porque tenho um filho que não foi planeado, qua na altura nem podia ser desejado e que naquele tempo de gestação comprometeu-se a ele mesmo. Mas tomei a decisão de o ter e desta minha decisão nasceu o que hoje tenho de mais importante, de mais rico e de mais precioso na vida. Daquele ponto de interrogação inicial surgiu um enorme ponto de exclamação, sinal de afirmação que marcou a viragem da minha vida conturbada.

E nesta primeira abordagem saíram estes pensamentos e saíram os primeiros juízos de valor. Porque é inevitável, porque à memória nos vêm aquelas mães que lutam diariamente pela sua cria, que colocam a sua vida de pantanas única e exclusivamente para serem mães. É justo todas estas trocas desastradas? É justo que as vidas humanas tenham assim tanta imperfeição? Não seria mais fácil dar a quem quer e privar quem não quer?

O artigo ficou a meio porque confesso me incomodei com algumas palavras e certos testemunhos. E incomodei-me porque num ou outro momento estes filhos ouvirão destas mães, ainda que talvez despropositadamente, estes desabafos, estas realidades, estas frases desprovidas de amor, de carinho e de afeição. Numa ou outra conversa mais acesa estes filhos serão confrontados com culpas que carregam sem saber e sem querer. Será justo que assim seja?

Retomei a leitura e decidi que não podia julgar. Não tenho esse poder, não tenho esse dever, não tenho esse direito. E não tenho direito de julgar porque melhor ou pior estas mães criaram os seus filhos, que segundo o artigo são pessoas na sua maioria adultas, com vida feita e constituída. E não quero julgar porque acredito que em dias normais e conversas banais estas mães não tocam neste assunto e reservam-no num lugar mais “obscuro” dos seus corações. Não posso julgar porque os julgamentos em praça pública são sempre muitos e desmedidos e tomam por vezes proporções aterradoras. E não quero julgar porque o maior julgamento será com certeza a consciência destas mães. É um peso que carregam para a vida, uma culpa que viverá com elas para todo o sempre. Estas mães não são felizes na sua plenitude por filhos que não queriam mas que decidiram trazer ao mundo.

Não sei se lhes gabo a coragem destas palavras, destes testemunhos ou destes pensamentos. Sei sim que deve ser preciso algo muito grande para que o tivessem exposto assim para todos e para o mundo.