Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Ele, o microfone e a mamã

"Radicalismos" de uma mãe galinha, rabiscos e cantorias do pequeno príncipe T e vida, muita vida para vos mostrar. No nosso T3 vivemos e sorrimos muito.

Ele, o microfone e a mamã

"Radicalismos" de uma mãe galinha, rabiscos e cantorias do pequeno príncipe T e vida, muita vida para vos mostrar. No nosso T3 vivemos e sorrimos muito.

À minha avó...que se "esqueceu de mim"

21.09.17 | Liliana Silva

m000219538.jpg

 

 

 

 

 

Não será fácil admitir. Não será fácil confirmar. Não será fácil assumir preferências por determinadas pessoas em detrimento de outras de igual valor. Eu admito, eu confirmo e eu assumo. 

Cresci contigo e era a ti que recorria em tantas outras vezes, sempre que era necessário. Cresci contigo e não soube descortinar os sinais que o tempo veio a mostrar. Cresci contigo e não consegui contornar as evidências de uma doença anunciada.

Na altura não se falava sobre isto. Na altura a palavra velho e demência eram vistos como sinónimos e explicação para muito do que se passava com muitos daqueles que enfrentavam as agruras da velhice.

Hoje sei reconhecer que nem sempre fui muito justa, hoje sei reconhecer aqueles sintomas.

Aquela agressividade com que tratavas ou outros, a não lembrança dos nossos nomes e das nossas vivências, a apatia "sincera" com que nos recebias, o desinteresse total pelas conversas que tentávamos ter contigo para te animar e trazer à tona. Hoje sei reconhecer que quando te queixavas de nós, quando ateimavas em não querer fazer a tua higiene diária, quando abruptamente tentavas sair de casa sem destino traçado, estavas já perdida no tempo e no espaço de uma doença que tomou conta de ti. Hoje avó tudo isso tem um nome: Alzheimer. E ainda hoje avó a medicina não tem uma cura definida para este problema que se estima, afectará em 2050 cerca de 131 milhões de pessoas em todo o mundo.

 

Neste dia mundial da pessoa com doença de Alzheimer a minha homenagem vai para ti...hoje e sempre continuas no meu coração. Peço perdão se, pela minha idade tenra, não percebi certos sintomas da tua doença.

Queria escrever-te...queria dizer-te muito e exprimir outro tanto, mas sabes há dias em que as palavras não fluem, em que os sentimentos ficam aqui apertadinhos no peito, em que o olhar fica mais distante e vazio. Hoje é um desses dias. Daqueles dias que guardo na memória pela tua perda, pela perda do teu toque, pela perda dos teus miminhos. Ainda hoje sinto a pele das tuas mãos enrugadas quando as entrelaçavas nas minhas...dos teus sinais...do teu cabelo branco...da tua trança (ahhh como era bonita a tua trança branca das tuas vestes pretas...como vês, passam os anos mas os teus traços são religiosos para mim. Confesso que lhe perdi a conta...já são muitos anos sem ti...e tinha tanto para te contar e mostrar. 

Perdi-te não no dia da tua morte, mas no dia em que esta maldita doença conseguiu arrebatar-te a alma e o coração e ficaste perdida nos teus anos vazios. Lembro-te com estima.