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Ele, o microfone e a mamã

"Radicalismos" de uma mãe galinha, rabiscos e cantorias do pequeno príncipe T e vida, muita vida para vos mostrar. No nosso T3 vivemos e sorrimos muito.

Ele, o microfone e a mamã

"Radicalismos" de uma mãe galinha, rabiscos e cantorias do pequeno príncipe T e vida, muita vida para vos mostrar. No nosso T3 vivemos e sorrimos muito.

E as notas?! Foram boas?

23.04.19 | Liliana Silva

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Chegadas as férias e ouvimos vezes sem conta esta expressão: "e as notas já sairam? Foram boas? Podes melhorar?"

Passei a minha infância e juventude a ouvir dos outros estas frases e lembro-me de achar que estavam a tocar num assunto que não lhes dizia respeito. Que só ao meu pai e à minha mãe deveria "prestar contas". Hoje já mãe volto a ouvir estas mesmas expressões e sinto o miúdo meio embarçado com a resposta a dar. Acho que diz a tudo que sim para não ter de ouvir mais respostas, e talvez porque ainda não tenha bem noção do que são as referidas "notas", vulgo avaliações.

Ora as do segundo período "já cá cantam" e ainda não fiz questão de tocar no assunto lá em casa. Aguardo serenamente a reunião com a professora e aí sim tirarei as minhas conclusões. 

Um dia destes, uma mãe em conversa sobre o assunto confidenciou que isto das pautas das notas tem muito que se lhe diga. Na altura não percebi bem a que se referia. Por estes dias, ao ler a entrevista do Prof. Dr. Mário Cordeiro ao Expresso consegui atingir o discurso daquela mãe...

O Dr. Mário diz então: "Não dêem às notas a importância que elas não têm!"

E continua: "Fiquemo-nos por aquilo que se passa nos quatro primeiros anos do ensino básico. O que se ganha quando se expõem, nalgumas escolas, as notas destas crianças? Na verdade, não se trata de esperar que quer as suas dificuldades como os seus méritos sejam clandestinos, até porque as crianças se comparam entre si. Mas, mesmo assim, o que é que se ganha quando há mães e pais (embora, “regra geral”, os pais vão muito menos ver as notas dos filhos) a anotar as classificações dos amigos dos filhos, a comentá-las e a insurgirem-se com elas, em público, diante das próprias crianças? O que se ganha quando algumas destas crianças - que terão ficado aquém daquilo que as mães entendiam ser justo para os filhos - são severamente repreendidas, à frente de todos, e, muito pior, com o argumento de que o colega A e B tiveram melhores resultados que ele? O que se ganha quando algumas destas mães debatem no WhatsApp as notas das crianças, dando-lhes uma importância que elas não têm? O que se ganha quando há pais a premiar com comentários públicos de parabéns no Instagram as notas dos filhos, quando não fica muito claro se se congratulam com os resultados do seu trabalho ou com a forma como parecem alimentar a sua vaidade? E o que dizer quando são as próprias crianças a competir entre si por melhores notas e a chamar aos colegas com mais dificuldades, naquele momento, alguns nomes feios (porque, afinal, não aprendem da mesma maneira e à mesma velocidade)? E o que se ganha quando os pais, de forma demasiado passiva, reconhecem que há turmas do primeiro ano (!!) em que as crianças são “muito competitivas” entre si, como se os pais e as escolas fossem estranhos a isso, e nada pudessem fazer para pôr cobro a essa deriva e as escolas destas crianças fossem campeãs dos défices de atenção e não só não entendessem o absurdo que isto lhes representa como não deixassem de o incentivar, mais do que parece?

Por favor, as crianças saudáveis não tiram sempre boas notas! Aprendem com os erros. Precisam dos enganos. E crescem com os insucessos. E, convém não esquecer, que as notas delas são mérito seu, claro, mas também não são estranhas à sensatez dos programas, e à qualidade da escola e do ensino. "

Confesso que este texto chegou em altura certa. No dia em que fui informada das avaliações, tive acesso às dele e às dos amiguinhos e lembro-me tão bem de começar, involuntariamente a correr a lista dos 25 alunos daquela pauta e mais inadvertidamente a fazer certas comparações. Poing...ahhh pois é, tudo muito bonito e volto a dizer, quem não o fez que atire a primeira pedra. A curiosidade alheia não é nada bonita, mas faz parte do ser humano e quase que me atrevia a dizer que mais de metade das mães ou pais analisou e comparou uma série de crianças com base naqueles MB, BO, ST, etc...

Ora posto isto, e depois de verificar que há melhor e também há pior, dei por mim a fazer novamente a reflexão que há muito interiorizei! Não quero que ele seja o melhor, quero que ele seja feliz. E confesso-vos que nisto da maternidade, às vezes faço verdadeiros testes individuais à capacidade de actuar enquanto mãe. Fechei aquele ficheiro e como disse ainda nem toquei no assunto lá por casa. 

E sabem como me sinto?! Feliz por não ter feito comparações em frente ao meu filho! Contente com a minha postura porque não o "humilhei" dizendo que A ou B teve melhores notas que ele. Alegre porque fui capaz de interiorizar que nisto das aprendizagens continuamos a ser seres humanos com outras e tão boas qualidades, e ele é tão bom em tudo o que faz, até nas birras 

Mas ao contrário do que eu já consegui "evoluir" enquanto ser humano, mas principalmente enquanto mãe, assisto de camarote a comentários tão pouco felizes e a atitudes ainda mais egoístas de pais e mães que acham que os filhos têm de ser muito bons e lhes colocam nos ombros a árdua tarefa de não desiludir. Como reage uma criança assim? Como actua uma criança quando sabe que falha? 

Não quero este peso nos ombros do meu filho. Continuarei a puxar por ele, a ajudá-lo sempre que assim for necessário, a fazer com que nunca perca o interesse nisto do saber, mas farei ainda mais questão de lhe ensinar que os valores da compreensão, da crença e do perdão deverão sempre fazer parte do seu currículo. 

 

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