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Ele, o microfone e a mamã

"Radicalismos" de uma mãe galinha, rabiscos e cantorias do pequeno príncipe T e vida, muita vida para vos mostrar. No nosso T3 vivemos e sorrimos muito.

Ele, o microfone e a mamã

"Radicalismos" de uma mãe galinha, rabiscos e cantorias do pequeno príncipe T e vida, muita vida para vos mostrar. No nosso T3 vivemos e sorrimos muito.

O buraco do inferno...

16.01.19 | Liliana Silva

 

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Cá por esta serra, onde a neve encanta e o verde nos entra pelos olhos, temos um poço do inferno. Um local lindo, uma pequena lagoa em plena Serra da Estrela resultante de uma queda de água com cerca de 10 metros de altura, formada pelas águas de uma ribeira. Lembrar-me deste poço é sentir liberdade, respirar ar puro, conectar energias com a natureza que nos envolve.

Mas por estes dias, a palavra poço leva-me ao buraco onde, muito provavelmente, estará o pequeno Yulen. E pensar nesta situação deixa-me sem fôlego. A ansiedade toma conta de mim ao pensar neste pequeno ser. Confesso que evitei escrever sobre o assunto. Muito menos me pus a ler sobre o mesmo. Recusava a ideia desta tragédia ser tão absurda quanto provável. Mas a verdade é que as buscas em nada têm dado e as esperanças começam a ficar minadas por falta de registo da criança. E agora pergunto eu...que karma é o destes pais que já perderam um filho para a doença? Que legitimidade terá um Deus para nos privar dos nossos melhores tesouros? Que mal tão grande fez este anjo para tamanha tragédia?

Há poucas coisas perceptiveis no mundo. Se olharmos em volta, vamos perceber pouco de como as coisas realmente funcionam. Pomos os nossos filhos para estudar, exigimos deles os melhores resultados, matamo-nos a trabalhar e exigem de nós resultados práticos. No final do dia a azáfama ainda nos tira tempo para as relações, para o toque, para as brincadeiras...e o dia passa! E os dias passam...

E as tragédias batem a porta. A campainha destes pais nem sequer tocou. Nem sequer tiveram tempo de dar à chave para trancar a porta. O grande objectivo deles era estarem em contacto com a natureza, passar tempo de qualidade em família, aproveitarem as relações humanas que o mundo ainda nos permite. Mas o buraco estava lá para lhes cravar a dor no peito. E volto eu a perguntar, quanto tempo teremos até que um buraco, uma pedra, um carro nos lime a vida ou o coração?

Yulen tem dois anos e não consigo imaginar uma criatura indefesa presa num espaço infímo, cheio de terra e escuro. Não terei capacidade de entender isto! Ninguém poderá ter!

Ontem o pequeno T perguntou se hoje de manhã podia acordar mais cedo e ir buscá-lo à cama para dormir um pouco abraçado a mim...gelei e só consegui dizer-lhe que sim.

"Não te esqueces mamã?!"

"Não meu querido, está prometido e não te vou falhar!"

Deixei a porta do quarto com vontade de voltar e agarrar-me a ele. Tentei não o "assustar" com o meu estado de espírito, e regressei mais duas vezes até ter a certeza que ele dormia o seu soninho de menino feliz. Aí deixei-me ficar sentada no chão daquele quarto, rodeada por legos, microfones e colunas, olhando-o fixamente, tentando arranjar maneira de o trazer sempre por perto, com um medo do caraças que estas tragédias um dia possam bater à nossa porta. Percebi, como é óbvio, que ele é do mundo e da vida, e que esta fará dele o que lhe tiver destinado. 

Enquanto isso, e porque ainda não consigo rezar, peço à estrela lá no alto que olhe pelo pequeno Yulen e o ampare na sua solidão. Ontem não pedi por nós, ainda que o egoísmo deste medo quisesse falar mais alto, pedi apenas pelo menino de dois anos e por todos os que sofrem com a fome, a guerra e as tragédias não anunciadas do dia a dia.

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