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Ele, o microfone e a mamã

"Radicalismos" de uma mãe galinha, rabiscos e cantorias do pequeno príncipe T e vida, muita vida para vos mostrar. No nosso T3 vivemos e sorrimos muito.

"Radicalismos" de uma mãe galinha, rabiscos e cantorias do pequeno príncipe T e vida, muita vida para vos mostrar. No nosso T3 vivemos e sorrimos muito.

Ele, o microfone e a mamã

21
Ago17

Um dia...Não serei bombeira!

Liliana Silva

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Um dia serei bombeira!

Não, não serei…não serei bombeira porque não suporto o calor…

Não suporto a ideia de fumo…

Não me identifico com aquelas roupas pesadas e quentes, com aqueles capacetes que nos privam os movimentos…

Não teria força suficiente para aquelas mangueiras pesadas…

Não tenho preparação física para andar no meio do nada, em busca da resolução para tudo!

Não consigo disponibilizar mais de metade dos meus dias à espera…

Não consigo passar as minhas horas à espera de um pedido de auxílio…

Não aceitaria deixar a minha família a qualquer hora do dia para me colocar em perigo…

Não tenho “orelhas de mercador” e não aguentaria que falassem mal de mim quando estava a dar tudo por eles,

Não aceitaria gritos de revolta, gritos de ajuda, gritos de aflição, simplesmente porque a desgraça alheia me deixa em pânico.

Não me satisfaria trabalhar em prol dos outros de barriga vazia, passar horas e horas sem um pingo de água para beber e de ânimos exaltados para ter de dar ainda mais e mais de mim…

Não serei bombeira. Mas sou humana, e  tenho-lhes um orgulho enorme porque eu não serei bombeira! Porque creio que não seria capaz do essencial. Não seria capaz de tudo isto e muito mais. Não aceitaria trocar os meus pelos outros. Lamento a crueldade das palavras. Lamento a frieza dos sentimentos. Lamento a ideia com que ficam da minha pessoa… Não serei bombeira porque para ser bombeiro é necessário nascer-se bombeiro, ter coração solto, olhos no horizonte, mãos com garra, corpo de luta, faro de especialista, ouvidos de “mercador”, braços e pernas de ambição. Ser-se bombeiro é acreditar no impossível, lutar quando todos dão aquilo como perdido, estender as mãos quando lhes dão com os pés. Conheço poucos assim...capazes de deixar o que é seu para salvar o que é dos outros. Conheço poucos, neste mundo onde todos olham cada vez mais o seu umbigo, onde cada um se fecha no seu casulo e pouco ou nada dá à sociedade e aos seus semelhantes...Conheço poucos que a esta hora trocariam as esplanadas pela frente de fogo. Conheço poucos que saiam de casa quando soa o alarme e há inundações em plena tempestade de Inverno. Conheço poucos que podendo aconchegar os seus filhos à noite na cama optam por ir desencarcerar homens, mulheres e crianças que o destino trai.

Continuo de coração vazio, o cheiro teima em barricar-se casa dentro, as chamas são visíveis a metros e metros de distância, o fumo cerca a cidade e teima em permanecer no horizonte, mas nunca serei bombeira porque não imagino estar de frente para este monstro chamado fogo.

O ser humano é bom a criticar, critique-se, sou apologista de que não nos devemos calar, porque só com críticas construtivas as coisas têm probabilidades de mudar...mas comecemos por quem de direito exerce lugares de destaque e chefia. Comecemos por nos interrogar a nós mesmos o que fazemos para que as coisas possam mudar. Comecemos por exigir mais de quem elegemos, de quem achamos que nos representará bem. Comecemos por saber distinguir dever de obrigação.

Nunca serei bombeira porque terei sempre o coração perto da boca e a alma pesada demais para combater livremente um estado que está cheio de vícios, de guerras internas, de comandantes a mais e combatentes a menos.

Nunca serei bombeira, mas orgulho-me, enquanto ser humana,  ser defendida por bombeiros, ser apoiada por bombeiros e ser protegida por bombeiros Orgulho-me de vocês como uma mãe se orgulha de um filho, porque mesmo sabendo que a perfeição não existe e que as coisas às vezes dão para o torto, estarei sempre cá para chamar por vocês, porque eu não sou bombeira mas sou mãe.

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